15.9.06

às vezes um regresso (sinal de maturação)

[acabou na mesma. mas não faz mal voltar a casa, por vezes.]

Tu:

Sabes que te sinto quando já nem te sei? Sabes que a cidade se transformou num esquema diferente, como o mar passou a ter ondas novas, como as frutas me cresceram nas mãos? Não sabes...
Já não és o meu amor, não pela razão do teu amor ser outro, só porque tu já não és o meu. Só porque eu já não te vejo quando os olhos são fechados, não acordo em alvoroço, não fumo por um reflexo, só por um prazer. Eu já não gosto de ti, já nem sequer da tua imagem. Passaste a ter forma de novo, como antes, antes do amor. Passaste a a ser só um humano, só mais um mas todos são tão importantes. Só és um bocadinho menos.
Quando pensávamos saber de tudo e cheirar de tudo, sentir de tudo ao mesmo tempo, esqueciamos o ritmo das coisas simples. Eu já nem sei o que isso é, podia dizer. Mas sei, acreditas? Alguém acredita? Voltei ao que nunca tive, à pequenez de um dia curto ou à chuva quando faz calor. Aos pés molhados ao relento, e isso não dói nem sequer trás frio. À autoestrada a cortar a Natureza e até isso pode ser bonito.

Para isto. Basta um pequeno pormenor. Pequeno, fácil, insignificante, concretizável: eu não te posso ver. Eu não posso saber que número de calças vestes só pela arma da visão, não posso saber o que comes ou o que bebes, não posso saber em que sala tu ficas quando descansas. Não posso saber do que ris ou como brilhas. Quais são os teus projectos de iluminação de espaços, quais são as pedras que queres apanhar do chão para me atirar, os murros e os silêncios nas ruas à noite. Mas afinal já nem atiras nada, não precisas, tens finalmente quem o faça por ti, é tão mais fácil ser a pedra mas não ser a mão. Como é mais fácil dar as feridas nos braços e nas costas, deixar marcas físicas em vez de deixar memórias. Porque a memória é um lugar onde se volta sempre.

Tu. Por ti prometi que não daria mais nada, nem sequer um olhar de longe ou um carinho de cumplicidade perdida. Conseguiste o que sempre julguei impossível, que olhasse o Homem com desilusão ou sem vontade. Que não parasse nas passadeiras nem desse de comer aos mendigos. Que não falasse de sentimentos puros, que não chorasse porque o tempo se esgota e há sempre coisas mais importantes para se fazer. Que deixasse de acreditar num deus, nem sequer isso, só deixar de lhe falar porque há sem dúvida coisas mais importantes para se fazer.
Ah, mas afinal um deus tem que existir, uma força tem de haver, não sei se nasce das pedras ou dos montes, se do ar ou da autoestrada. Se soubesses o prazer que me nasceu por parar nas passadeiras, por dar de comer ou dar de conversar, se visses como é bom sair de casa e conhecer pessoas na rua, de novo, à noite ou de dia. Como é bom tantos saberem quem sou, saberem mesmo sem mentiras, e ainda assim me amarem sem condições. Como é bom amar sem condições, gostar de cada um que passa só pela sua condição de transeunte. Ser menos, sendo mais.

Como é bom já não gostar de ti. Ou nem saber de ti.

17.5.06

FIM

O Città Stencil acaba aqui. Depois de alguns meses de viagens, onde se começou em Milão e se acabou em Lisboa, chega agora a hora do fim. Não há amor que dure sempre.
Está-se há tempo demais em casa, e por casa não se escreve. Agora espera-se por outros países, talvez assim por outros blogs.
A todos os que me leram, um enorme obrigada. Foi bom ter-vos por perto.

Vimo-nos por aí.

antes do Fim







15.5.06

encaixe

São feitos por trás, como se de bolos se tratassem.
Bolas de berlim, assim, como as que comíamos na praia em pequenos?
Não, não tão redondos nem tão fáceis de agarrar. Mais do tipo escorregadio. A grande semelhança é que também despertam a vontade de mergulhar. Mas daí também não podemos tirar grandes conclusões. São tantos os objectos que nos estimulam assim.
Mas como foi que os descobriste?
Num dia de sol.
Só?
Num dia de sol em que tudo cantava. Até os carros. Aqueles dias de janela aberta e música alta, de mar à esquerda, de ventoinhas no máximo. Era um dia de solidão bem aceite, melhor que isso, de solidão apreciada. Até Elton John parecia rei em vez de senhor.
Seguraste-lhe arma? A do teu pai? Desculpa…
Não. Fiz de mim um yankee activo, quase de boné posto, em cima de um camelo. E o animal bebia calmamente a água do oásis. E eu deixava-me estar, serenamente atento ao som dos seus golos.
O que achas que vão as pessoas dizer de tudo isto?
Que enlouqueci. E que te levei comigo, como se pesasses pouco, como se coubesses na minha mochila. Como vou rir-me!
Mas explica lá melhor o objecto. Só mais uma vez.
E se em vez de falarmos, escutássemos? Melhor, se em vez do silêncio, nos olhássemos? Frente a frente ou lado a lado. Aqui, sobre esta escarpa de manteiga.
Gosto muito das tuas explicações.
E eu de ti, criança. E eu de ti.

12.5.06

O Vermelho Glorioso

Depois do tempo passar tão forte, como rajadas de vento num deserto onde não se foi ainda. Depois de cenas de estilo ou tiques de boca. Depois de noites quentes abraçadas por um Deus ensinado ou noites de luz em danças de Verão. Depois de partidas e regressos e procuras e adeus. Depois do tempo que volta em mãos fechadas ou gritos de estado maior. Depois do cinzento misturado com o amarelo, depois das cicatrizes nas mãos e na testa, depois dos pensos mal colados e da neve de um Inverno abrupto. Depois das carapaças batidas e das cascas duras, das gretas de sabedoria e das faltas de oportunidade. Depois da vida que corre bem e dos olhares de longe.
O regresso ao Nilo. À torre de Pisa sem mãos que a segurem, ao topo da muralha, às saladas ao sol e ao papel de cor. Ao nariz de Cleópatra, às listas de cinco, à tábua sobre o mar, às paradas em terras escondidas. A volta um pouco à frente, o coliseu em Budapeste, o soneto em Lichinga. As moscas sobre as pautas e as mãos sobre os joelhos. A luz púrpura sobre a costa espanhola, o derby vencido a vermelho. Acima de tudo as músicas escondidas, as que se perdem no tempo ou envergonham o gosto. A magia das vias de leite, os dentes partidos em metamorfose perfeita. Duas mãos que se tocam com força [abaixo a brandura], numa coragem transmissível, numa robustez de vitória. O agradecimento aos de baixo, o cabelo desordenado, a barba por fazer. Os calos da inteligência, as admissões do dano.

A negação total do arrependimento, como num brinde a todas as cores, às fachadas já cortadas. O credo na mudança caduca, apenas as árvores morrem de pé.
E o cheiro da terra nas mãos.

9.5.06

A Paragem

A ele lhe devia o espaço morto, a privacidade de uma dia de Átilas e de Bledas. Queria talvez que fossem dois, que os tiros fossem fortes como a intensidade de uma vida, que as magias se fizessem fora das cartas ou dos relógios.

Os autocarros passavam, como sempre, pela mesma zona e a mesma hora.

Imaginava como teria sido, como os pés lhe seriam hoje mais fortes, como a terra seria diferente ou talvez nem houvesse terra. Sentia-se regressar quando pensava assim. Sentia e ouvia arcos voadores e experiências magníficas, gelados derretidos pelos objectos novos. Cheirava e tocava em doces maiores, de música suave e muito bem acompanhada.

As crianças passavam, como sempre, pela mesma zona e a mesma hora.

Sentia falta de uma promessa distante, de olhos em fuga ou mãos em traição, da insanidade constante ou as ruas subidas. Deixava-se ficar assim, de rosto ao sol e mãos em cruz, perdido nos caprichos do clima, entregue aos desejos do tempo.

As nuvens passavam, por vezes, pela mesma zona e a mesma hora.

Sabia da felicidade como de um Olimpo vivido, sabia da vida como um regresso ao passado. Esperava o nada como quem espera o tudo, sabia de cor cada passagem de nota ou até de acorde, distinguia cada bemol de um sustenido. Respirava como um dom de Deus.

Guardo tudo o que me deixaste até nunca mais apareceres, Caco.

As frases passavam, como sempre, pela mesma zona e a mesma hora.

5.5.06

Os Dedos Sujos

Se o tempo não chegar eu não serei nada. Se a tinta não escorrer ser-se-à a música.

Mas tu amas quem não deves, pintas o que se apaga.

Se as chuvas crescerem até aos pés direitos, se os quadros se absorverem nas cores, se todas as letras esperarem, se as mães não o forem cedo demais, se as camas não se perderem. Então será certo.

Mas tu esqueces-te tanto. Tu magoas e magoas-te, tu escutas demais, falas tão pouco do que deves ou devias.

Eu fico acordado tantas horas, vejo o primeiro raio como as mãos trémulas de um amor que partiu ou se partiu. Eu sinto o brilho que os pequenos não vêem, eu gasto todos os lençóis que qualquer homem alguma vez tenha criado.

Mas eu queria tanto que fosses certo, que acertasses pelo menos, que ninguém tivesse que zangar-se ou desiludir-se de ti. Queria olhar-te com carinho e tanto orgulho, não ter de passar-te as mãos na parede rugosa. Eu queria tanto que fosses certo.

Se as formas se esgotarem ou os tubos acabarem, se os recortes ou os actos se perderem, se os buracos já não forem, então prometo que me esqueço de tudo. Que deixo de confirmar as tuas suspeitas ou atalhos, que páro todas as colagens e derrapagens.

Eu amo-te muito.

Talvez um dia, depois das cores.

27.4.06

Atenção ou As Marchas do Fantástico

Traição pelos Deuses

[a todos os que tentaram mas não puderam]

Acredita num deus cheio de mãos, pleno de movimentos interessantes, embora desconexos e confusos. Acredita na procura e no desejo do encontro, nas linhas tortas que se fazem rectas ao fim de um tempo investido. Sabe o eterno, o que muda e desmuda e cruza e volta atrás. Mas acredita sempre no regresso e na certeza.
Reza em lugares abertos ou buracos fundos, em silêncios de paz que o farão mais. Acredita em todas as músicas e orações, sente-se mais e menos e mais, um filho pequeno nos braços de uma força, o olhar dos outros cabe-lhe na palma do coração. Em casa. Sente-se em casa.

Sai.

Para fora da igreja ou da caverna. Sabe o Bem, sabe o que deve fazer e quem deve escutar. Sabe cada conta como cada dedo da mão. Devo rezar, devo rezar. Devo ficar e nunca partir nada. Cheira os dedos e tudo lhe trás as azeitonas, não sabe porquê, talvez a cidade esteja carregada de oliveiras.
Com coragem inspira. E respira de novo. Agora vai ser com tanta força.

O autocarro que passa, as árvores que caem, o granizo que parte cabeças, as gripes que perturbam. O homem que pede, o caminho que é longo, as castanholas que se batem. O mar que toca.

Sai.

As luzes fazem-se mais fortes, piscam com a intensidade maluca de um pecado adormecido. Não posso ver, não quero ver. Para cima e para baixo, como numa dança da bailarina de néon, como na estrada secundária que une duas cidades. Não sou e não estou.

Mais depressa que tudo, que qualquer maratona sobre pontes, que qualquer puxão que rasga camisas de quadrados, que qualquer oração em Marte, que qualquer toque de sexo e não de amor. Mais depressa que qualquer fuga.
Chega assim o segundo homem:

Importava-se de ajudar-me? Eu sei que fiz qualquer coisa mal, que enterrei a última peça de forma errada, que por isso agora a caixa pesa, que por vezes ela deixa farpas onde todos se picam. Mas importava-se de ajudar-me? Preciso de mover este objecto de sítio.

Olha para um lado e para outro, as luzes cada vez mais fortes, todos os outros por trás, com tudo na mão, com objectos de fé e cebolas, com facas afiadas e a dor dos dois gumes. O sangue no chão, a pingar a solidão deste transeunte que em nada lhe parece estranho, podia até jurar tê-lo visto um dia numa mesma casa que frequentou.

Não roubo o seu tempo. Só lhe peço este minuto.

Volta a olhar. Não o sabe olhar nos olhos. Levanta-se para o chão. Levanta-se e parte. Olha para trás como quem diz que entende, só não pode. Os olhos do homem já não os encontra. Só o seu braço permanece. E em volta deste uma fita grossa, de pano azul, muito velho e muito sujo, como uma ligadura que envolve a alma, como um olhar perdido no pó.
Sem saber porquê passa a ver ali uma caixa fechada, velha, um poema dos antigos – um baú de acento perdido. E lembra-se assim de o pedir tantas vezes. E lembra-se assim que o deixou.


Um dia, todos os deuses se juntarão, como numa festa de união, como num banquete quente. Um dia, todos admitirão seus erros. Como numa canção de fé.

21.4.06

O Amor em 2021

- Tu podias ser as minhas asas, sabias?
- Eu podia era ficar quieto, em casa, ao piano. A tomar conta dos esquilos que ainda aparecem quando olho.
- Não, mas tu podias ser fora dos animais. Tu podias dar de beber ou de comer, tu podias ser fé.
- Eu gosto de ficar dentro de uma larga caixa, eu gosto de ser homem e de comer dos pratos. Eu gosto do tempo que faz lá fora.
- Tu és o homem da minha vida.
- Eu entendo o que dizes, sei cada força melhor que a ração. Sei os teus gestos como a ternura que um dia entrou pela porta de trás, sei o teu cabelo que cai como os vulcões que um dia voaram no Danúbio. Sei os teus olhos como as maçãs de um dia quente, as tuas mãos como o algodão que me passavam quando estava febril. Sei de ti.
- Tu podias tornar a vir comigo.
- Eu gosto de ficar, gosto que apareças mesmo quando me dói, gosto de ouvir o que dizem os outros a respeito do tempo. Eu gosto do tempo quando ele aqui não existe.
- Tu podias escutar com mais atenção, podias saber a ternura como tudo o que move.
- Eu gosto do calor. Gosto do teu corpo cansado ao som dos violoncelos, gosto de saber-te em salas e mais salas e mais salas.
- Tu podias acreditar no fogo.
- Eu gosto que subas. Gosto de dizer-te não, gosto de olhar com atenção a água a escorrer-te até aos dedos, gosto dos teus olhos a mudar de cor, gosto da tua atenção. Eu gosto da loucura que cresce com os girassóis.
- Tu podias ser vento. Podias ser cadeira onde me sento, ser motor violento e brando, ser a saída de emergência em cada acesso.
- Eu gosto do piano. Gosto do silêncio das pancadas ocas, de ficar a olhar-me as mãos quando o dia ainda nem nasceu, de receber o primeiro raio como a benção das primeiras chuvas. Eu gosto tanto de sentir.
- Tu podias acreditar, tu podias deixar.
- Eu gosto da voz rouca do homem que passa a apregoar concertos, gosto das novidades que a alpista espalhada pode trazer. Gosto das surpresas do vento. De olhar com atenção os que não caem, de mudar de roupa tantas vezes num só dia tão curto, de me mudar para um lado e para o outro de uma mesma sala.
- Tu podias estar no papel central, ser a luz onde ela incide, ser o resto do que fica. Tu podias ser meu pai, minha mãe, meu irmão e minha salvação. Tu podias ser Deus comigo.
- Eu estou sereno quando a lua chega grande, quando as noites aquecem e a solidão é um prato frio e uma colher tão larga. Gosto de me lembrar de ti e de saber que me amarás até ao fim dos teus dias.
- Tu podias, meu amor, ser o meu amor de todos os dias. Ser o de que todos falam abertamente, ser os carros velozes numa ida ao mar. Ser o corpo a mais na minha mão pequena, sempre em forma de ti e à espera de ti.
- Eu gosto da minha família. Eu escolhi o meu caminho, há tantos anos atrás. Escolhi a serenidade de um história feita, os muros seguros de um afecto estável. A palavra ternura, meu amor, guardei-a eternamente só para ti. Eu escolhi ter medo de ti para sempre, escolhi esperar-te sempre para poder mandar-te embora com pavor. Escolhi que ninguém se lembrasse de nós em tempo algum, escolhi que às borrachas fosse dado o uso supremo. Escolhi os teus olhos cansados como tábua de salvação, escolhi o fim da vida como o princípio de um entendimento.
- Tu podias voltar atrás.
- Eu escolhi a paz.
- Tu, um dia, talvez mais tarde, podias lembrar-te de nós com o coração que apagaste. Podias lembrar-te do sonho e da verdade, da primeira vez e da segunda, do objecto divino que eu te fiz tantos. O mesmo que eu levava no bolso e que tu me deste primeiro. Podias saber que a vida não se engana, que os homens é que dividem estradas. Tu podias voltar a saber como o meu coração quase rebenta quando te olha, como eu tentei por tantos anos a distância do fogo. Tu podias esquecer-te de como eu te amo.
- Eu sei como tu rebentas. Eu sei a nossa ternura.
- Tu podias vir.
- Tu podias voltar, sempre neste mesmo dia.

Abraço

- Não me largues.
- Não me largues.

20.4.06

Mentira

É o fim do cigarro adormecido.
É o a partir de hoje o recomeço, são as derrotas da justiça, os passeios abandonados. É a vontade da doença ou de qualquer coisa mais forte que os sentidos.
Nada se perde, tudo se aponta em muros tão curtos, em saias tão sonhadoras.

A meio da noite o susto do sonho do abraço.
Porque será que o orgão-músculo se escorre?

Não tenho medo. Não tenho medo. Não tenho medo. Não tenho medo. Não tenho medo nenhum.

As cidades amam o teatro, assim como os monstros amam os pequenos, assim como os altifalantes amam o arame farpado.
E já chega, já chega de vontade, já chega do outro do perdido, já chega da água. Chega tudo porque tudo é compatível.

18.4.06

A Revolta do Amor Incontaminado

Foi assim, meu amor, como se a chuva caísse e mandasse parar o pó. Como se eu nunca tivesse tentado nada, nem ir para África sequer. Como se nada viesse na nossa direcção, como se o primeiro beijo não fosse susto e cabeça baixa e abraço e amanhã abraças-me de novo porque nem assim eu fugirei. Como se não te tivesse visto no dia seguinte, assim, de olhos plenos e certezas, e a toalha no meu corpo, apertada como um escudo. Como se todo o medo não tivesse ao mesmo tempo caído ao chão e começado ali, naquele quarto de cores claras. Como se ninguém percebesse, ninguém suspeitasse. E até como se no futuro não confiássemos, porque a questão nunca se pôs de frente. Como se não soubesse que te tocaria assim, como se não soubesse desde o terceiro dia mas o terceiro dia veio exactamente um ano mais tarde. E como se tu não me amasses. Como se fosse possível.

Foi assim, amor. Foi assim por tanto tempo depois, em noites de chuva e casas de Verão. Em carros chegados para o lado, em afastamentos gerais de um mundo que agora dizes saber que odeio. Foi assim a vergonha, foi assim o princípio do conhecimento de todas as coisas, foi assim a solidão que se derretia em paredes de remorso e injustiça. Foram assim as estradas corridas em lágrimas de gritos, em pontos de interrogação a esmagarem-se contra o vidro. E foi sempre assim a tua voz de conforto, o outro lado que se transformava em defesa, foi sempre a promessa de um entendimento, foi sempre a mão maior que a linha da ponte onde uma tarde fizemos amor cheio de cheiros. E hoje são as frases gastas de um filme que já toda a humanidade viu, são textos decorados pelos outros, são gritos declamados pelos que julgam saber porque quando se sabe um sabem-se todos. São os pontos de interrogação a encolherem com a roupa e com a chuva, não em esclarecimentos divinos mas em redenções de tempo. São planos perfeitos em sete segundos de uma hora, são decisões de vida ou refúgios na loucura declarada.

Como se o tempo.
Como se existisse.
Como se os pianos.

Foi assim, o amor escrito em todas as paredes de uma cidade adormecida, de uma religião vencida, de um orgulho magoado. Foram quatro olhos juntos em silêncios de respiração funda, foram eu amo-te, eu amo-te, eu amo-te tanto. Que não posso. Foi o sorriso mais fundo de uma vida inteira de rugas antecipadas, foi um tecto escancarado para um céu todo verde, foi uma casa proibida por todos e ainda assim um arroz cozinhado pela mão da ternura. Era um pano branco todo manchado pelo chocolate, era um nó no guardanapo como marca de posse. Eram corações tão velhos a despertar para a novidade da inocência. O medo e a vontade de ir longe demais, a mistura perfeita para um dia resultar a admirável explosão. E as paredes todas sujas, o sangue a dor e o amor numa dança de perfeição.

Hoje é assim. O amor afogado na dor, a traição sentida no diário, os outros que não mordem mas ladram, porque ainda te protegem. A polícia que se contratará um dia, porque o carro continua habituado a caminhar para a serenidade, o desespero que se auto-inflige, as letras que se pintam, os bons dias que se dão com toda a ternura que o mundo ainda consegue suportar.

O ar não pode pesar mais que isto.
Mas pode sempre, os poços chegam sem aviso. A turbulência dá sono.

Hoje é assim. Assim há tempo demais, mas Deus não faz puzzles para os tornar a desfazer, a chuva não te cai na cara em tardes de Barcelona, o sol não te aquece a barriga em manhãs de praia, esse Deus não põe outro, assim, ali, a ver tudo isto como se Picasso nunca tivesse existido, nem Pollock, nem a música, nem as ventoinhas de energia eólica, não coloca um filho seu a questionar toda a beleza que cresce das mãos dos homens porque ali finalmente viu o Belo, o Bom e o Bonito. O perfeito. É tudo matematicamente impossível.

Hoje é assim, e a loucura não se sobreporá a nada, muito menos ao Amor. A obsessão não existe, é garantido. Os loucos não são outros, não são fora. Esses loucos, meu amor, são a certeza dos enganos. Desse teu deus que faz montanhas e as sopra, que faz contas e depois é formado em História ou em Letras. E no que tu me fizeste acreditar. No que tu me fizeste crer e depois querer.

As curvas endireitar-se-ão.
As máquinas dispararão sozinhas.

Vou voltar a ensinar-te.
Vais aprender a comer sushi e a amadurecer paredes.
Meu Amor.